Nós e o tempo


O tempo é de uma crueldade saborosa. Em termos de ação ele é passivo, constante em suas passadas. E ainda insistimos em culpá-lo de tanta pressa ou por vezes demorar a passar. E apesar de ser nele onde gravamos nossa existência, quase nunca ele está do nosso lado. Temos, nós e o tempo, uma relação deveras delicada. Gosto de pensar no tempo como um chefe de família, soberano, majestoso. Penso nele ali, confortável em sua poltrona a observar nossos tropeços. Cada vez que o fitamos em busca de respostas, ou aprovação de nossos atos débeis, ele continua ali, imóvel. Buscamos qualquer pequena alteração que entregue seus pensamentos, mas essas não existem. E de tanto fitar, juramos de pés juntos, termos avistado um sinal, um lampejo qualquer que fundamente nossas decisões. 

Quanto tempo perdido. 

Em sua maioria, gastamos nosso tempo buscando aquilo que achamos necessitar. E nesse tempo, temos a sensação de não termos tempo disponível. Embebido de pura ironia, é nesse exato momento que o tempo coloca ao nosso redor o que nos completa, aquilo que nos define. Esta é a essência feminina do tempo, fria, manipuladora, a brincar com nossa cegueira impondo frente aos olhos o que julgaremos tempos depois necessitar. E perderemos mais tempo em lamentar aquilo que se foi.

E assim vamos vivendo, juntos, nós e o tempo. Há quem prefira seguir o fluxo, sem muito pensar. Há aqueles que combatem tanto a existência, que já nem se lembram o motivo da batalha. Eu gosto de diversificar, ora lutando, ora deixando levar. Mas nessas idas e vindas, descobri que às vezes vale a pena parar por um tempo e apenas observar. Não importa por quanto, mas observar com muita atenção. Pois quando somos observador, o tempo se permite descansar, como a mãe que relaxa enquanto o filho assiste ao desenho animado. E é nesse momento que enxergamos, ali, parado ao nosso lado, ao alcance de um braço estendido, um tanto daquilo que por tanto buscamos encontrar! 

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