Linha cruzada

Você me ligou hoje. Você disse "Alô!" e desligou. Impossível não reconhecer um alô que aprendi a ouvir por tantas vezes, com esse tom de desconfiança, um quê de raiva embebida em confusão. Você me ligou e em tão pouco tempo fez de mim um turbilhão de sentimentos. Os pensamentos se misturaram em uma velocidade tamanha que nem sei dizer qual pensei em pensar primeiro. 


"When everything is going down
nothing seem to feel same
no one seem to know my name
no one seem to go my way

but who knows if i'll see you again
but who knows if i'll see you again"



Só sei que por entre eles essa foi a música que tocou! Quem sabe? Ninguém... O será é torturante, martelando cada pequeno pedaço de meu ser. Eu tenho nem mesmo o direito de dizer se quero ou não, se posso decidir. Sou um alvo de zilhões de pequenas flechas disparadas a esmo. E cada vez que uma acerta é difícil predizer por quanto mais resistirá, o eu alvo. 

.
.
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Você hesitou, mas por fim ligou novamente. O tom de voz já não era mais o seu, e insistiu em se apresentar por um nome que desconheço. Havia inclusive uma simpatia disfarçada em sua voz, que nunca lhe pertenceu. Você ligou de novo, mesmo não tendo discado meu número. E falou comigo, mesmo sendo contra sua jura mais sincera. Você ligou, e por mais que minha mente soubesse que passava de um engano estúpido, minha alma buscava insanamente qualquer vestígio que pudesse comprovar sua presença ali, do outro lado da linha. 


E no silêncio entendi que sua ausência nunca existiu de fato.
Pois mesmo quando a flecha erra o alvo, o dano ainda é gigantesco!

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