Leitura do dia!
Um avatar no meu quintal
Mario Persona
[Crônicas para ler depois do fim do mundo]
Juntando os comentários na Web sobre o ativismo ecológico de James Cameron na Amazônia, a mensagem de quem reclama é uma só: O cara não tem nada que se intrometer no meio-ambiente daqui. Será?
A verdade é que as questões ambientais não têm fronteiras. Como na Pandora do filme Avatar, vivemos num mesmo planeta onde tudo afeta a todos. Uma erupção no vulcão Eyjafjallajökull na longínqua Islândia vai parar no seu pulmão, quer você consiga pronunciar o nome do vulcão ou não.
Sem tirar de James Cameron o direito de defender índios e flechar hidrelétricas, eu só diria a ele: "Menos, James, menos...". Por quê? Porque ele está com o rabo preso em uma sociedade de consumo que polui para sobreviver. É admirável sua disposição para defender nativos de pele vermelha ou azul, mas também admiro quem defende as hidrelétricas como opção de energia limpa e barata.
É claro que colocar uma rolha no Rio Xingu gera impacto socioambiental, mas não existe opção rápida para pessoas ávidas para assistir Avatar em 3D numa nova TV, como eu e você. Pouco a pouco vamos aprendendo a ordenhar o vento e o sol, mas ainda é debalde para a atual demanda de energia. Por um bom tempo continuaremos dependendo da hidrelétrica, do átomo e dos combustíveis fósseis para quase tudo, inclusive para fazer filmes.
Sabia que Hollywood é a segunda indústria mais poluente de sua região? Pois é, e o governador da Califórnia está empenhado em reverter isso. É o mínimo que pode fazer quem já foi o exterminador do futuro. Somos tão dependentes da indústria petroquímica, que até para protestar contra o combustível fóssil dependemos do dito sujo. Os motores dos navios do Greenpeace não são movidos a boas intenções, e aqueles caras não fazem rapel no costado dos superpetroleiros com cordas de sisal biodegradáveis, nem seus botes de ataque são pedalinhos.
O calor do protesto pode aquecer a opinião pública global, mas as soluções costumam vir de quem fala menos e faz mais. Mesmo assim, quem fala deve continuar falando, consciente de que estamos todos de rabo preso no atual modelo de desenvolvimento. Inclusive você, que usa a Internet. De acordo com o Daily Telegraph, a cada duas buscas no Google você gera tanto CO2 quanto para ferver seu chá.
Ativistas radicais sugerem deixar o mato crescer, esquecer as hidrelétricas e não mexer com o índio. A questão é que o índio não é tonto. Hoje ele também quer transporte, luz, Internet e celular. Querer viver índio com cabeça de consumo é repetir a tragédia asteca. Pode funcionar para uma tribo de meia dúzia, mas não funciona para uma tribo de meia dúzia de bilhão.
A visão romântica de meus anos de ativista ecológico na faculdade, com cada um morando numa casinha branca no mato e assando seu próprio pão, é pura ilusão. Terminei a faculdade, fui morar no mato e fiz até uma canção para embalar meu sonho. Mas não é preciso ser muito inteligente para entender que mil pães assados num único forno gastam menos energia do que mil fornos assando cada um o seu pão.
É por isso que cidades empilhadas e apinhadas ainda são mais eficientes do que condomínios horizontais, com casas esparsamente polvilhadas em extensos gramados. Apartamentos gastam menos energia, encanamento, fiação, superfície impermeabilizada, transporte, etc. Quanto mais gente você empilhar, menos energia vai gastar.
Mas não se torture se morar numa mansão. James Cameron mora em uma construída e mantida à custa de muito combustível fóssil em um oásis artificial irrigado por bombas no deserto. Como eu já disse, todos nós temos o rabo preso, mas se for para o bem do planeta, até vale o James adotar o Avatar mais adequado ao seu papel de salvador da Pandora amazônica.
Até eu tenho o rabo preso nos atuais meios de transporte altamente poluentes, pois para fazer palestras de meio-ambiente e outros assuntos, viajo de carro ou avião. Não posso viajar nos cavalos de seis pernas de Pandora, ou voando em seus dragões alados. E ainda que pudesse, não seria diferente dos habitantes de lá. Afinal, no filme eles também só conseguem viajar quando estão com o rabo preso.
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