Tênue



Eu queria ter em mim a força da certeza, e nela apoiar meus pés cansados. Eu só queria poder pisar sem precisar medir tanto o caminho. Mesmo ao levantar poeira, saber que sob a névoa encontra-se rocha firme. Fechar os olhos e seguir firme. Confiante. Mas a vida não é dessas consistências, e há quem diga que é aí onde mora toda a graça. Eu queria que esse palpitar entre meus peitos fosse de certezas, em sua esmagadora maioria, e não dessa dúvida massacrante. Queria apenas ser, e perceber que é só o que basta aos que em minha margem residem. E pensar que transbordo em mim um mundo de coisas para compartilhar. Queria parar de sentir esse vazio que preenche tanto... Mas eis que estamos aqui, em convivência. E para conviver é necessário viver pela metade, escolhendo a sua melhor e compondo o restante aos poucos, sem pressa. Feliz daquele que souber compor o meio que lhe resta com o que há de melhor a sua volta. Como quem escolhe as frutas que irá saborear no passeio de fim de domingo. Como quem decide o vestido certo para um jantar especial. Como quem pensa nas palavras a proferir cuidando das consequências. O processo é longo e cuidadoso, e ao completar sua metade é provável que as certezas se façam presentes. Ou até mesmo descubra que é preciso derramar um pouco para completar com descobertas novas, mais interessantes, mais bonitas, mais suaves. O tempo nos faz seleto e as escolhas se tornam rigorosas. E obter descanso ao deitar a cabeça no findar do dia tem se tornado tarefa quase impossível. Eu só queria ter em mim a força da certeza. Como quem sabe, sem sombra de dúvidas, que essa pessoa ao seu lado é a que irá te acompanhar por todo o sempre. Mas se nem mesmo o cair das folhas é certo no ser do outono, que dirá saber dos mistérios da vida. 

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