Victoria
Capítulo 3 - Knut Hamsun
Mas o que era o amor? Um vento que sussurra entre as rosas? Não, uma fosforescência amarelada no sangue. O amor era uma música de um fervor infernal, que pode fazer dançar o coração dos velhos. Era como a margarida que se abre totalmente com o aproximar da noite, era como uma anémona que se fecha ao mais ténue sopre e morre quando é tocada.
O amor era isso.
Podia destruir um homem, reerguê-lo para o destruir de novo. Podia amar-me a mim hoje, a ti amanhã e a ele à noite, de tal modo era inconstante. Mas também podia permanecer solidamente intacto, como um selo de lacre inviolável e podia arder inextinguível até à hora da morte, porque era eterno. O que era então o amor?
Oh! O amor é uma noite de Verão com estrelas no céu e fragrâncias na terra. Mas porque encoraja o jovem a fazer desvios e porque leva o velho a erguer-se na ponta dos pés no seu quarto solitário? Ah! Porque o amor transforma o coração do homem num jardim de cogumelos, um opulento e vistoso jardim, onde cresce o cogumelo misterioso e audaz.
Não é o amor que incita o monge a entrar de noite nas cercas dos jardins para espiar às janelas as belas adormecidas? Não é ele que enlouquece a monja e faz perder a razão à princesa? Não é ele que faz com que o rei ande com a cabeça rente ao chão, com os cabelos a varrer o pó, ao mesmo tempo que murmura palavras impudicas, ri e põe a língua de fora?
O amor era isso.
Não, não, era uma coisa muito diferente, uma coisa única. Veio à terra numa noite de Primavera, quando um jovem viu dois olhos... dois olhos. Olhou fixamente e viu. Beijou uma boca e houve um encontro de duas luzes no seu coração, um sol que brilhou dentro de uma estrela. Caiu num abraço e não viu nem sentiu mais nada no mundo.
O amor é a primeira palavra de Deus, o primeiro pensamento que atravessou o seu espírito. Quando ordenou "Que se faça luz!", foi o amor. Tudo o que criara era muito bom e estava contente por tê-lo feito. E o amor foi a origem do mundo e o dominador do mundo, mas todos os seus caminhos estão semeados de flores e de sangue, de flores e de sangue.
Comentários
Postar um comentário