Reflexividade
Eu tive o prazer de conhecer uma pessoa incrível. Essa pessoa é capaz de deixar de lado os seus afazeres para poder me ajudar quando preciso. Às vezes eu nem preciso tanto assim, mas essa pessoa sabe que me ajudando eu vou passar pelo o que quer que seja de uma maneira mais feliz, tendo sua companhia. Ela me surpreende das mais diversas maneiras. Tem dia que me recebe com um belo jantar, noutros volta pra casa com um pequeno mimo que comprou apenas por lembrar de mim. Eu não sei muito como reagir, e na maioria das vezes apenas pego os presentes e agradeço. Ela é extremamente carinhosa, adora receber abraços e, como não acontece muito, ela então decide oferecer abraços apertados e demorados, daqueles bem gostosos. Às vezes eu estou esquecido, largado no sofá vendo nada e nem me dei conta que passei todo um dia sem contemplar aquele sorriso. E lá vem ela, sem esperar minhas ações, ela se aconchega em meus braços e me abraça por um longo tempo. Sinceramente, não sei dizer porque não respondo as suas carícias, talvez por medo, ou por não saber agir. Mas ela é generosa, sabe que cada um tem seus motivos, e por conta própria se retira por saber que o tempo avançou e preciso dormir. Mas mesmo quando acordo, lá está ela de volta, deitada ao meu lado, me fazendo carinhos e dando beijinhos de leve para não me tirar do sono. Ela é incrível, eu posso contar para ela os meus sonhos nessa vida que não receberei críticas. Pelo contrário, ela é dessas pessoas que me incentiva em tudo o que eu gosto. Até mesmo algumas coleções que eu tinha ganharam proporções enormes depois que a conheci. Com ela me sinto seguro em ser o que eu sou. Mas eu não consigo retribuir, e não sei porque. Eu simplesmente sigo vivendo do jeito que eu sou, mesmo tendo ao meu lado uma pessoa incrível. Com o tempo percebi que ela foi ficando mais distante, menos espontânea. Como se os abraços viessem por rotina ou obrigação. E eu não gostei de perder aquele encanto todo, e comecei a me perguntar quantas outras pessoas incríveis poderiam existir por aí. Eu continuei vivendo os meus dias como sempre, sem contemplar aquele sorriso, ficando jogado no sofá a espera dos mimos e dos carinhos e dos abraços. E como isso não acontecia mais com tanta frequência, eu percebi que aquela pessoa incrível era culpada, por ter me dado tanto e depois ter parado. Ela não tinha o direito de fazer isso comigo. E tem mais, de repente ela começou a querer conversar demais e explicar para mim porque estava tão distante. Mas eu não queria ouvir, eu não queria palavras, eu queria as ações...
Eu fui ingênuo. Porque não percebi que a frustração que eu sentia agora, eu causei nessa pessoa incrível por todo esse tempo. E mesmo assim ela continuou ao meu lado. Mas para mim é muito difícil reconhecer um erro desses. Eu não sei como lidar com isso. Eu optei por continuar calado.
Eu conheci uma pessoa incrível.
Essa pessoa sou eu.
Que bom.
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