O não dito
Eu queria ter a sapiência dos que escrevem para saber dosar minhas palavras insossas, mas acho que no momento só quero mesmo exorcizar meus pensamentos. Em uma conversa espontânea entre amigos pós show de metal, saboreando um podrão na madrugada chuvosa de Petrópolis, ouvi ele dizer que parou de usar os industrializados mas ainda tem um tabaco que volta e meia fuma no trabalho! Assim, seco, um soco no estômago! Quando o conheci ele fumava, e bem! Mas nunca exigi que parasse. Um dia ele tomou a decisão sozinho e fez questão de deixar claro que não era por minha causa, o que fiquei muito grata em ouvir, pois é uma decisão que só cabe a ele mesmo. E me admirei com tamanha perseverança. Nunca mais mesmo! No início ele gostava até de contar os meses que estava sem fumar. E eu o admirava cada vez mais. Ele é sempre tão decidido, como consegue aturar uma insegura como eu? E quanto mais o admirava, mais eu me julgava ao fracassar em minhas pequenas decisões. Mesmo falhando e me sentindo ridícula, eu compartilhava com ele minhas derrotas em busca de apoio, conforto ou qualquer coisa que me fizesse sentir não estar sozinha nessa. Como é bom saber que se pode compartilhar essas coisas com quem está ao seu lado. E aí, hoje, como se fosse do conhecimento de todos (talvez só eu mesma não sabia), vem essa informação de que ele às vezes fuma no trabalho. Não sei dizer como consegui segurar o sorriso e sustentar uma pose de quem já sabia do anunciado, mas se tem uma coisa que eu odeio mais do que a omissão, é discutir assuntos pessoais em público. Quando chegamos em casa, toquei no assunto e ele pareceu surpreso, disse que não queria que eu soubesse, que talvez eu me sentiria triste se soubesse. Talvez não tenha contado por vergonha. E ele não queria me incomodar com cheiro de fumaça. Tudo o que eu senti foi uma inutilidade monstra! Que espécie de namorada sou eu que sequer sirvo de porto seguro para compartilhar as inseguranças? Será que sou desse tipo que só quer ser ajudada, mas não tem paciência em ajudar? Será que já falhei com ele nesse sentido, e por isso ele parou ou nem sequer começou a confiar em mim? Ou talvez eu esteja tão aquém que é melhor mesmo me deixar de fora! O fato dele fumar não me chateou, como disse, só cabe a ele. O fato de eu sequer saber disso me deixou tonta. E ele foi mesmo cuidadoso, pois nunca senti cheiro da fumaça. Eu realmente não consigo entender sentir vergonha de quem te dá total suporte, mas não sentir vergonha perante os outros. Sei que a intenção não foi essa, mas estou me sentindo enganada, e confusa. Inútil.
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