Esse silêncio...
"Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espectáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu. Talvez porque eu pense de mais ou sonhe de mais, o certo é que não distingo entre a realidade que existe e o sonho, que é a realidade que não existe. E assim intercalo nas minhas meditações do céu e da terra coisas que não brilham de sol ou se pisam com pés - maravilhas fluidas da imaginação." - Livro do Desassossego, Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
Houve uma fase da minha vida em que eu queria muito concluir meus estudos, ter um emprego, família, cultivar os amigos e viajar bastante. Eu projetava isso como a minha vida adulta. E como o passar dos anos sempre me trouxe fases boas, imaginava que a fase adulta seria maravilhosa! Eu sempre projetando o que não devia... Entretanto, enquanto projetava o que estaria por vir, eu também vivia a minha fase pré-adulta estudando muito, mas me divertindo horrores. Como fiz duas faculdades, sempre tive círculos de amigos distintos. Mas tentava cumprir a agenda de todos eles. Eu odiava recusar um convite pra me divertir, nem que isso implicasse em passar as madrugadas trabalhando. E em sua maioria, nosso entretenimento era sair de repente, sem hora marcada, encontrar um bar barato (estudante é um bicho ferrado) e passar horas a fio bebendo e conversando. Nossa, como a gente falava. E trocava ideias, falava piadas, a risada ia solto pela madrugada. Se aquilo era bom, em meu imaginário existia o conforto de que a vida adulta seria melhor.
Bem, aqui estou eu, vivendo a fase adulta, e cheia de sentimentos nostálgicos. Financeiramente tenho minha liberdade, tenho meu emprego e cuido de minhas contas. Ainda não concluí os estudos, mas o caminho profissional que escolhi vai me manter como uma eterna estudante, então essa causa eu já abracei. Família, só a que eu deixei em casa... Passei por alguns atropelos que a vida nos proporciona, e acabei pegando desgosto por casamento, família, filhos, essas coisas... Um filho eu ainda gostaria de ter... Mas isso é pra próxima fase! E os amigos, bom, eu tentei de todas as formas cultivar os que eu já tinha, mas a distância é cruel. E os novos que fiz, não sei explicar bem, mas não temos a mesma liga. É uma amizade sem sustância, com muito benefício e pouca dedicação. Todos tão focados em seus próprios pés, sem poder dedicar 1 hora que seja para descontrair numa conversa na mesa de um bar, livre de julgamentos. Acho que encontrei o momento em que o bom começa a diminuir de intensidade, e isso me assusta. Nem comecei a viver ainda... E esse silêncio, ah, esse silêncio me perfura a alma. Que falta faz as palavras, ditas de forma simples, direta, sem meias verdades.
Não pensei que seria tomada por este pensamento ainda tão jovem, mas como gostaria de voltar no tempo e ficar por lá um pouco mais...

Comentários
Postar um comentário