Prelúdio
Aos 30 anos de idade, em um fim de tarde varrido pela neblina que só a cidade de Petrópolis pode fornecer em pleno 2 de Janeiro, cá estou eu há exatos cinco minutos tentando formular a frase que dará início a este livro. Quando percebo que, tomada de um impulso quase próprio, a caneta decide tal dilema por mim, juntando as palavras que, há pouco, tanto relutavam em sair. Não, esta não é a primeira vez que tento escrever um livro. Mas é a primeira vez que me sinto realmente motivada a fazê-lo. E assim me sinto, pois pela primeira vez tenho medo da inexistência.
Me lembro com clareza o dia em que decidi entrar para a equipe de basquete da escola. Eu só queria jogar e me divertir sem compromisso, mas não fazia ideia de como era escasso o número de jogadoras, e qualquer menina que entrasse era crucial para a equipe. Em menos de duas semanas de treino já havia um jogo marcado. Eu, na minha inocência, pensei que não sairia do banco de reserva, pela falta de experiência. E portanto, não prestei muita atenção ao jogo que se desenrolava na minha frente, dando prioridade aos estudos de uma prova que faria no dia seguinte. Para minha surpresa, fui convocada à quadra. E os segundos que sucederam foram inesquecíveis: nossa equipe estava para bater a lateral; eu entrei em quadra como ala-pivô; logo em seguida recebi a bola um pouco depois da linha dos três pontos, totalmente desimpedida; ainda pensei duas vezes sobre o que fazer e, então, arremessei. E a bola seguiu seu percurso, em um trajeto perfeito, adentrando a cesta sem encostar no aro, produzindo aquele som delicioso que todo jogador de basquete sabe como é! Chuá! Era eu pulando de emoção, a equipe brigando comigo e o público rindo. E só então eu percebi que havia feito uma cesta contra. A humilhação e a zombaria foram enormes naquele dia. Mas, naquele dia, para cada uma daquelas pessoas, eu existi.
Assim como o episódio do basquete, em diversos outros momentos de minha vida a inexistência nunca me assombrou. Pois, de alguma forma, eu estava sempre cercada de pessoas, que é o ingrediente fundamental para se prevenir a inexistência. Não que eu tenha virado (não ainda) um eremita, e fui viver isolada em uma caverna, cultivando uma barba quilométrica. Eu ainda vivo cercada de pessoas, mas é diferente. A essa altura da vida, as pessoas que me rodeiam mais se parecem com ilhas daquelas bem selvagens. A comunicação com elas é bem rudimentar, e qualquer mal entendido pode gerar uma guerra com resultados catastróficos. Assim, acaba sendo mais seguro me transformar em uma ilha também, e tratar eu mesma de alimentar os meus macacos.
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[Texto escrito em 2 de Janeiro de 2013]
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