Contrapartida

Depois de muito insistir, consegui uma vaga em meio a tantos telefonemas nesse dia especial. Consegui uma vaga, e foram suficientes os dois minutos e dezesseis segundos dos quais apenas informei o motivo da ligação. Recebi os agradecimentos protocolais e desliguei. Por quê eu insisti tanto, se a vontade é superficial? Porque a saudade nunca se foi. Porque aquilo que não existe ainda ronda feito fantasma a minha memória imprestável. Porque eu queria ter ficado por horas naquele telefone, até a orelha esquentar. Eu queria ter declamado poemas e me perdido em meio a cartas sem fim. Eu queria ter escutado a sua surpresa ao ter recebido o presente por semanas arquitetado. E queria ter cuspido o quanto faz falta a sua presença. Eu queria ter sido sincera ao dizer que em breve, seja lá quando isso for, trocaremos abraços. Talvez leve muito mais tempo do que imaginava, e ainda corremos o risco de não ser o tempo suficiente. Eu juro que estou tentando, com todas as minhas forças, reaver um pouco do que fomos. Já consegui eliminar toda aquela raiva que só servia de contrapeso. Hoje tento colocar um pouco de doçura quando falo contigo. Lento. Nós dois erramos, cada qual em sua magnitude. E sei que está sendo difícil para ambas as partes. Mas o importante é não desistirmos. Pois eu sei que o dia que a vontade se fizer genuína dentro de nós, será o dia mais sublime de nossas vidas. E terá valido todo o caminho tortuoso que fizemos. 

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