Pensamentos Calados

Sabe quando temos certos pensamentos que nos colocam em dúvida, ou se expostos podem nos colocar em uma posição de desconforto perante os outros? São os que tenho no momento. Começo o ano de 2012 escrevendo em silêncio. Eu já me explico, prometo, mas antes quero expor o seguinte poema:



Pessoas em toda parte,
Falando, usando cores berrantes
O som da conversa é como patas de cavalos.
As cores berrantes cegam,
A conversa fere meus ouvidos,
As cores berrantes ferem meus olhos.
Oh, por que as pessoas não podem ficar caladas e usar cores discretas.
[Dianne Mear 1994]

E logo em seguida, este poema:


Os humanos são a raça mais ilógica que existe.
Nada que eles falam,
Nada que eles fazem,
Faz sentido. 
Oh, porque os humanos não são lógicos?
[Dianne Mear 1994]

Quem é a autora de poemas tão revoltos? Não sei. Tudo o que sei é que a autora é portadora do Transtorno Autista. E aqui se dá o início aos meus questionamentos inquietantes. 

Há alguns meses me vi envolvida em um projeto que busca desenvolver programas de computador com o intuito de auxiliar no tratamento dos portadores do transtorno autista. O projeto ainda se encontra bem no início, mas com grandes vertentes. Enquanto solidificamos nossas estruturas, sempre que possível busco ler e saber um pouco mais do assunto, que me é distante. E venho descobrindo que nada sei a respeito. 

Mas o que me chama a atenção em tudo que leio não são as características ou definições do transtorno em si. Mas a preocupação constante em prover aos portadores uma "qualidade de vida". E aqui, exatamente aqui, ficam aprisionados os meus pensamentos. Lanço a pergunta que não me deixa em paz: Afinal, o que definimos como qualidade de vida?

Reitero, nada sei acerca do transtorno autista, e tudo o que escrevo mora em um âmbito filosófico despretensioso e confuso. 

É claro que a problemática é muito maior do que analisar poemas. Em casos graves, os portadores são totalmente dependentes de pessoas que os ajudem em tarefas básicas do dia-a-dia. A falta de controle, ou o chamado colapso, em que os portadores muitas vezes se deparam são perigosos, podendo ocasionar lesões neles mesmos ou aos que os rodeiam.

A minha inquietação está concentrada no âmbito da socialização. Percebo que existe uma grande concentração em "melhorar" a relação social dos portadores do transtorno. Em fazer com que sejam capazes de perceber o outro, de intuir sobre posturas sociais, que sejam capazes de sentir emoções. Mas melhorar é realmente uma palavra interessante. Porque induz à noção de que a relação social dos ditos normais, ou os não-portadores do transtorno autista, é o estágio catalogado como melhor na escala da evolução. 

Será?

As grandes mentes da história da humanidade refletem uma vida social quase inexistente. A base da ciência tem como alicerce indivíduos esquisitos e anti-sociais que se dedicaram por toda uma vida a pesquisar e registrar os conhecimentos adquiridos, sem se preocupar com as pessoas a sua volta. 


Por que temos essa necessidade de impor posturas a tudo e a todos? Nós temos nossas diferenças, e isso não implica em sermos melhores ou piores que os outros. Aquele que não olha, não necessariamente deixa de enxergar. Aquele que não responde, não necessariamente deixou de ouvir. Aliás, acredito fortemente que nosso convívio social precisa de reeducação. Nós, os normais, que temos a capacidade de interação social, não nos damos o trabalho de conhecer as pessoas de nosso ambiente. De que adianta ter foco visual se não enxergamos o que está a nossa frente? De que adianta termos a capacidade de nos comunicar, se não ouvimos o que nos dizem?


Os humanos são a raça mais ilógica que existe.


Veja o caso de Gilles Trehin, um francês, autor e criador da cidade imaginária Urville. Publicou um livro que fala da história, da geografia, da cultura e da economia da cidade ficcional, incluindo 300 desenhos dos diferentes distritos da cidade. 






Veja por exemplo a história da Carly, uma garota portadora do transtorno autista, incapaz de falar, e que começa a se comunicar através do computador. Vejam a capacidade de coesão textual dessa garota, a forma como relaciona  e explica seus impulsos! 








Para finalizar, vejam o caso da Temple Grandin, cuja vida foi tratada em um filme em 2010 pela HBO. Diagnosticada como autista, os médicos achavam improvável que viria a falar. Atualmente, tendo o Doutorado em Ciência Animal pela universidade de Illinois, é professora na universidade do Colorado e autoras de diversos livros. Por suas palavras:


Em 1950, recebi o rótulo de autista, mas consegui passar para o outro lado, além das trevas, tateando no escuro. Os incidentes de que me lembro cotam uma história fascinante sobre como as crianças autistas percebem e reagem de forma incomum ao mundo estranho que as cerca – o mundo ao qual tentam desesperadamente impor alguma ordem.


Enfim, são tantos casos, tantos questionamentos, e um tanto mais a se aprender. Tenho total consciência de ter discorrido por assuntos que não domino, mas que de alguma forma instigam o meu pensar. 
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É que às vezes me parece que temos mais a aprender do que a ensinar.


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