Divagar devagando

Eu tive exatas 24 horas para expor em algumas poucas linhas sentimentos os quais não compreendo mais. Eu tive exatas 24 horas para deixar transbordar tintas as quais venho retendo desde então. Eu tive exatas 24 horas para fazer sangrar essas secas páginas, mas no fim de nada adiantou. Eu simplesmente não consigo. Estou inerte, parada em um instante que nem bem sei onde. Eu vejo a vida que se prolonga em minhas margens, mas eu não a sinto. Eu sinto absolutamente nada. Fomos separados de uma maneira tão abrupta que ainda não digeri tudo que passou. E meses já se passaram. Eu me pergunto se você ainda se lembra de mim. Se você se lembra do eu transformador, forte, capaz de superar barreiras intangíveis. Se ainda se lembra das lágrimas derramadas de todas as sortes, bem como dos sorrisos intermináveis nas tardes frias de domingos. Será que ainda se lembra de todos os meus sabores, de todas as minhas nuances? Se lembra de meus projetos, das minhas metas, dos meus desafios? Você ainda se lembra da beleza de meus defeitos, de todos eles? Eu lhe pergunto isso, meu amor, porque infelizmente eu não me lembro. Reitero, estou inerte. E nesses poucos momentos de devaneios, me pergunto se por ventura não estaria perdida por aí, em algum cantinho úmido de sua memória. Se você me encontrar, por favor me devolva. Eu bem sei que ilesa não sairei, mas se eu puder reaver apenas um pouco de tudo o que eu já fui, serei capaz de lidar com essas profundas novas marcas que me (re)desenham. O que será de nós daqui em diante? Eu nem sei o que é de mim agora, que dirá antever o imprevisto. Deixemos a vida seguir o seu curso, como de praxe. Quem sabe um dia, em uma esquina qualquer de um lugar algum eu possa enfim, sem amarras, te dar esse abraço que guardo com carinho, e seguir meu caminho levando comigo a certeza de que tudo valeu a pena, ao final.

Comentários

  1. Inércia, solvente, derrete a minha mente!
    Fagulha, ilusão, acende o meu perdão!
    Quem será o salvador?
    Quem dirá que eu estou bem?
    Apareça, por favor,
    me transforme em alguém.

    (Trecho de Desabafss - Dan Ribley)

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