Marés
Essa vida é mesmo irônica. Tem dias em que estamos numa maré danada de boa, onde nada parece ser capaz de nos abalar. Nesses dias, as cores são mais vivas e os sabores mais intensos. E o tempo parece voar como bala de canhão. Acontece que, durante esses dias, somos impelidos a verbalizar promessas das quais não nos damos conta de seus significados. Principalmente quando estamos na presença de uma grande paixão. Não nos cansamos de dizer o quanto amamos, que nossa vida em separado não tem sentido e que somos capazes de um tudo pelo bem da pessoa amada.
Entretanto, como todo bom enredo de filme de suspense, as marés mudam. E quase sempre o fazem de maneira abrupta. Junto das marés ruins vêm as fortes tempestades responsáveis pelo naufrágio de inúmeros desavisados. Destemido, você luta com todas as forças para se salvar, sem se esquecer de salvar contigo sua pessoa amada, aquela a quem prometeu proteger de todo mal. O esforço demandado é enorme, e você descobre como é capaz de tanta coisa quando o amor está em jogo.
Então, é neste momento que entra em cena a ironia. Quando tudo está fora do lugar, quando a tristeza parece não ter fim e o coração se aperta demasiado forte, de alguma maneira que não sei explicar você consegue antever uma luz em meio às sombras. Nessa luz você encontra o conforto de uma breve calmaria, que lhe diz que tudo irá se acertar, desde que você deixe ir aquela pessoa por quem tanto lutou. Você descobre que na verdade seus esforços não estão ajudando, e sim atrapalhando, e que para lutar pelo bem de quem tanto ama é preciso desistir você mesmo de sua luta. Seus caminhos já não mais serão trilhados juntos e o mal que você precisa combater é a própria presença.
Ironia.
Será que você é mesmo capaz de cumprir aquilo tudo que prometeu?
Mesmo quando isso implica o próprio naufrágio?
Comentários
Postar um comentário