desejos

Ele não parava de me agarrar, ali, na frente de todos... A vontade era tamanha que não conseguiamos sair dali, e ali mesmo nossas mãos se perdiam em nossos corpos, as bocas se chocavam loucamente enquanto fingiamos uma dança que nem de longe acompanhava o ritmo que tocava na pista. Nem os olhares curiosos, nem as gracinhas alheias, nada o fazia parar. Eu até tentava alcançar uma pequena liberdade mas... eu queria? Não mesmo, ali é onde eu queria estar, perdida naqueles braços que só sabiam me acolher... Era ali, exatamente ali que eu queria estar, mas infelizmente tudo isso só passou de um devaneio estúpido.

Enquanto eu dava cabo de uma bebida sem graça nem cor, o moreno, MEU moreno, estava no outro canto do bar, nos braços finos de uma loura aguada qualquer... É engraçado, somos tantos, espalhados por ae, e não fazemos idéia do que se passa na cabeça do outro, que está ali, pertinho, na mesa ao lado. Será que ele faz idéia que essa garota sem graça tem fantasias eróticas das mais picantes e que ele é o ator principal? Quantas naquele bar estariam pensando o mesmo? Afinal, o moreno sabe mesmo chamar a atenção com aquele olhar que me devora sem nem mesmo precisar tirar a roupa...

Garçom, mais uma bebida sem graça... E para acompanhar, mais uma dose de devaneios aventurescos para apimentar essa vida cinza... Ao menos tenho uma bela de uma imaginação, que já me levou aos quatro cantos do mundo, em histórias diversas e emocionantes, acompanhada ou não... Na maioria das vezes acompanhada. Beeeeem acompanhada!!! Mas todas com o mesmo solitário final, numa cama de casal, agarrada a um travesseiro mole e desforme... Não, garçom, não estou passando mal, só estou retendo mais um grito de agonia, dessa vida que me mata lentamente, sem piedade...

Mais uma bebida. Acho que essa será suficiente... Respiro fundo e engulo de uma só vez, deixando escorrer o último gole pelo canto direito da boca. Lascivamente passo a língua da direita para a esquerda, passando pelo lábio superior, com a boca ligeiramente aberta, e recolho minha alcóolica lágrima quase desperdiçada. Enquanto que, ao mesmo tempo, liberto o meu cabelo e balanço a cabeça para dar-lhe vida, movimento. Levanto da cadeira e desabotôo o casaco, jogando-o displicentemente na mesa, e, passo por passo, me encaminho ao centro da pista, vagarosamene levanto meus braços e deixo a música penetrar por todo o meu corpo, em lugares jamais tocados, e sinto a vibração que faz com que cada parte de mim dance livremente...

Comentários

  1. Interessante a 'distância' entre o que a gente quer e o que acontece, né?
    Mas definitivamente é difícil os fatos reais superarem a imaginação... ela é quase sempre mais interessante.

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  2. li umas 3 vezes, já.

    adorei =)

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