exílio

Já estou há 11 meses morando longe de casa. No início tudo era novidade, a cidade, as pessoas, os estudos. Mas eu achava que em pouco tempo eu me acostumaria com a situação. Ledo engano. Apesar de quase 1 ano nessa, todos os dias eu me levanto da cama e levo algum tempo para ajustar a cabeça. Ainda me espanto de estar longe, numa casa diferente, numa vida diferente. Entretanto, o que mais me assusta é quando retorno a minha cidade, pra casa dos meus pais, e percebo que também me sinto diferente lá. É como se eu não pertencesse nem lá nem cá. É uma sensação de liberdade, de desapego, um tanto estranha. Ontem, perambulando pelos orkuts dos amigos, deparei-me com a conta do Carioca, um grande amigo que foi estudar na minha cidade e lá mora desde então. Decidi perguntar a ele se isso que sinto é normal, se ele sentiu o mesmo e se dava pra se acostumar com o tempo... Não sei se a resposta era exatamente o que eu queria ler, mas foi esclarecedora. Por isso decidi postá-la aqui! Lá vai:

Sabe Sicilia, isso é o exílio, não pertencemos onde estamos e nem somos mais de onde viemos... pode parecer estranho, mas isso é bom, não deixa a gente se acomodar, faz com que sejamos críticos com as coisas e conosco mesmos... Ou seja, acho que isso responde um pouco sua pergunta sobre se dá pra se acostumar, a gente nunca acostuma...Eu gosto dessa idéia de exílio (recomendo um autor que fala bem sobre isso, Edward W. Said - Referências do Intelectual - e nessa idéia de exílio q é completamente diferente da idéia comum de que o enxerga como um corte total, um isolamento, uma separação desesperada do lugar de origem. Se fosse assim, um corte definitivo, seria muito mais cômodo, mas não estaríamos inquietos e a inquietude nos faz criar, é a partir da dor, da solidão, e principalmente do fato de sempre estarmos incomodados que nos faz sermos críticos, não acomodados, criadores, e muitas outras coisas... Sabe, eu sei exatamente como é esse sentimento que vc me descreve, esse estranhamento... E eu nunca me acostumei, já fazem dez anos que eu estou em campos, (sem contar os anos q moro só antes de vir pra campos) e o sentimento é o mesmo, nunca estou cá e nem lá... E o que me consola (consola não, o que me motiva) é pensar nesse estranhamento como sendo esse conceito de exílio... nem cá, nem lá... (adorei a pergunta rs... vamos, qualquer hora dessas conversar sobre isso numa mesa de bar heheh) Força minha amiga... saudades!

Comentários

  1. Mas é assim mesmo minha amiga, a vida nunca foi fácil para aqueles que não são acomodados, e acho
    que essa é a graça de se viver, é tudo tão intenso, sabe? Acho que uma situação confortável, de
    se estar acomodado não é nada intenso, é como se não aproveitássemos a vida, e toda angústia,
    alegria, sofrimento...todos esses sentimentos intensos fazem parte dela... e essa situação de
    exílio que mencionei me fez enxergar isso tudo... é igual quando criamos algo, é intenso e é uma
    situação de dor pq estamos nos doando (sempre estamos nos doando, em tudo na vida). Então, reproduzindo
    uma legenda de uma das minhas fotografias no orkut,uma vez conversando com uma professora amiga,
    chegamos a conclusão de que o ato criador gera dor! Andei pensando sobre isso: quando criamos
    estamos colocando uma parte de nós na obra, falo principalmente de arte (literatura, artes
    plásticas, fotografia, cinema etc), nos colocamos em nossas obras de forma tão intensa e de forma
    tão dolorida que é capaz de fazer com que outras pessoas sintam algo com nossas produções, elas
    não podem nem saber, mas sentem um pouco de nós, um pouco que não nos pertencem mais e que ao
    sair de dentro da gente dói! Pode ser bom, belo, mas dói... e isso é viver, sabe?

    Sugestões: em momentos de crises, sejam elas existenciais, epistemológicas, consciência,
    ideológicas..., recolha-se e estude, estude a si, o mundo, as teorias... Juro que faz bem!(outra
    legenda de uma das minhas fotografias no orkut rsrs)

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  2. Ah sim... só pra esclarecer por que mencionei o ato de criar e principalmente criar artisticamente...
    A arte sempre busca fazer representações, "retratações" do real, da vida... portanto eu considero o ato de viver o maior ato de criação que influencia os outros... (não sei se estou sendo bem claro... rs)

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  3. Ah... rsrs... só pra constar... Alexandro F. (eu) pra quem não me conhece (rs), é o tal carioca que Sicilia diz no texto...
    Cara, a sua pergunta me deixou muito inquieto... e isso bom...

    bjs minha amiga

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  4. nossa, estou vendo que minha pergunta fez borbulhas no teu cérebro! o que é bom, pois movimento os pensamentos!!! no fim das contas estou curtindo a idéia de não me acomodar com essa nova situação em que me encontro. até porque já percebo que daqui pra frente sempre terão mudanças, e cada vez mais vou me sentir no exílio! que bom saber que não estou só!

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  5. Sécis,
    Chama esse seu amigo pra vir tomar umas brejas conosco aqui em Pet.
    Sinto que há papos que prometem...ô se sinto.

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